Filha bastarda de um país que me rejeita: A resistência de um povo com 500 anos
Uma reflexão crítica sobre os desafios da comunidade Portuguesa cigana a residir em Portugal, denunciando a discriminação e o apagamento identitário. Com base na experiência pessoal e na missão da Associação Unir Povos, o texto defende a educação como o caminho essencial para a justiça social e a verdadeira cidadania.
Como Mulher portuguesa de etnia Cigana e presidente da Unir Povos – Esforço e Determinação Associação, não posso calar-me perante a forma como as instituições continuam a olhar para nós. É uma ferida que não fecha, porque não deixam que feche. A pergunta que me assombra, e que faço a quem nos governa, é simples... Até quando vamos ser empurrados para os gabinetes de migração, como se a nossa naturalidade portuguesa fosse uma dúvida e não um facto?
Como escrevi no passado, "o que me move é não querer continuar a sentir-me filha bastarda de um país que é meu e me rejeita"
Somos ciganos, portugueses, com séculos de história nestas terras, mas o Estado insiste em tratar-nos como se tivéssemos acabado de chegar. Passámos pela ACM, agora pela AIMA, e a lógica perversa mantém-se: colocam as nossas comunidades em gavetas de "integração de migrantes". Isto não é apenas um erro administrativo; é um apagamento da nossa identidade e uma forma vil de fugir às responsabilidades de combater o racismo estrutural que nos exclui.
Quando as políticas públicas nos olham através da lente da migração, estão a negar a nossa ancestralidade portuguesa. Estão a dizer-nos, indiretamente, que não pertencemos, que somos convidados em nossa casa. Mas como bem disse, "nós fazemos parte desta sociedade há 500 anos, mas a nossa história foi segregada, apagada" .Os políticos parecem mais interessados em gerir rótulos do que em encarar a realidade de um povo que, com esforço e determinação, reclama o seu lugar de direito. Não queremos ser o "projeto de integração" de ninguém; queremos ser cidadãos iguais, respeitados na nossa diferença e reconhecidos na nossa pertença.
A escola, para mim, continua a ser a grande batalha. "Acredito que só com a educação é que vamos conseguir a justiça social". É através da educação que ocupamos o nosso espaço, que nos tornamos visíveis e que impedimos que continuem a falar por nós. Mas a educação não serve de nada se o Estado continuar a fechar os olhos à discriminação que começa na própria definição de quem é "português". Enquanto nos tratarem como estrangeiros, estarão a perpetuar um mundo onde o preconceito tem lugar garantido nas leis e nos corredores do poder.
Continuo a minha caminhada, com a Unir Povos ao meu lado, porque "luto por um mundo sem preconceitos". Não vou sossegar enquanto a minha gente for tratada como um caso de polícia ou uma estatística de migração. Somos o rosto de um Portugal que já devia ter aprendido a orgulhar-se da sua diversidade, mas que, por medo ou preconceito, prefere manter-nos na margem.
A nossa história não foi apagada por acaso, foi apagada porque incomoda quem quer um país à medida dos seus próprios privilégios. Mas a resistência é o nosso nome do meio. Continuaremos aqui, a exigir o que é nosso por direito: a igualdade, o respeito e a plena cidadania.